Cartas

Paris, 20 de Abril de 1931

 

Meu caro José

 

   Recebi com vivo prazer a sua carta de 15 de março, de felicitações pelo meu aniversario natalício. Muito Obrigado.

   Tive muitos cuidados de sua pessoa, do Alceu e dos amigos, logo após a revolução, e só vim ter noticias de que vocês estavam em Itapetininga e nada tinham sofrido, por cartas da Olívia e depois pela Alice e as meninas, quando elas chegaram a Paris.

   Recebo com regularidade as cartas que os amigos me mandam, principalmente as que vem do norte, que levam menos tempo para chegar. Por elas se vê que os nossos correligionários vão se portanto em toda parte com grande dignidade o que vai se tornando insustentável a situação da ditadura.

   Os usurpadores do poder estão por pouco mais de um mês…se tanto.

   Estamos suportando tudo isso com grande resignação. A vida á assim em toda parte e não há como modifica-la.

   Somos testemunhas presenciais da maior modoficação politiva e social por que tem passado a humanidade. Mas, o que todos buscam, em todos os paizes, é realizar o seu sonho de bem estar e de felicidade, procurando tornar a Liberdade mais livre e a Justiça mais justa, para uma vida mais digna.

   O que não compreende é que uma nação, como o Brasil, após mais  de um século de vida constitucional e liberalismo, retrogradasse para uma ditadura sem freios e sem limites como essa que nos degrada e enxovalha perante o mundo civilizado.

   O exílio é uma grande escola para os homens públicos. A solidão forçada abre novos horizontes á missão que temos a cumprir na terra.

   No mundo espiritual, foi do exílio que os grandes perseguidos se tornaram úteis á humanidade. Moyses ou Christo, Mahomed ou Buddha foram obrigados ao exílio, onde meditaram e de onde trouxeram a orientação com que até hoje os seus apóstolos conduzem a humanidade. As obras imortais de Dante ou de Luthero, de Nietzsche, ou de Cervantes foram meditadas na prisão ou no exílio.

   No mundo político, mais terra a terra que os outros, os exílio marca os homens de Estado com uma melhor percepção, uma reflexão e um calculo muito mais apurados e perfeitos do que os daqueles que “passam pela vida em brancas nuvens”. Daí é que vem a conclusão com que Stefan Zweig glorifica o exilio de “Joseph Fouché”, afirmando… Por conseguinte, nada mais afortunado a uma carreira de homem publico que uma interrupção momentânea, porque aquele que não vê o mundo senão do alto de seu trino, de cima de uma torre de marfim ou do auge do Poder, não conhece senão o sorriso dos inferiores e seus falsos desvelos.

   A posse continua do Poder faz esquecer sua verdadeira imporcia. Nada enfraquece mais o Artista, o Comandante, o homem de ação enfim, do que a satisfação contínua de suas necessidades, conforme a sua vontade e o seu desejo, pois não é  senão pela queda que o Artista se torna em contato direto com a sua obra; não é senão pela derrota que o Comandante conhece seus erros, como não é senão pela desgraça que o homem de Estado adquire a verdadeira clarevidencia política. Somente a interrupção do fausto e dos aplausos pode dar ao homem um novo ritmo de vida onde possa adquirir novas molas e uma nova elasticidade criadora. Somente na desventura é que se adquire uma visão larga e profunda das realidades do Mundo. O exílio é uma dura escola, mas a unicaescola onde se aprende: ela descobre e concentra a vontade dos fracos; torna resoluta o homem indeciso e argumenta a firmeza dos que já eram firmes. O exílio é sempre para o homem verdadeiramente forte, não uma diminuição, mas um argumento de forças”…

   Quanta filosofia consoladora nesses conceitos! Por eles vale a pena ser exilado…mas, quando vamos alcaçando os nossos desolados cincoenta anos, longe dos parentes, dos amigos e da Pátria que agonisa escravisada , as filosofias pouco adiantam. A vida é uma só e não se repete…

   Não sei se tem sido divuldagos no Brasil como são aqui na França, as noticias da revolução na Espanha e dos primeiros atos da Republica. Eles encerram preciosos ensinamentos e são justamente o contrario do que se pratica no Brasil. O Rei perdeu as eleições, abandonou o Poder, a Republica foi proclamada e o novo governo vai fazendo a reconstrução do Pais, com grande serenidade, com um bom senso e um patriotismo dignos de registro, sem consentir na mínima perseguição a quem quer que seja. Ai os que perderam as eleições foram os que fizeram a revolução para usurpar o Poder e perseguir a maioria da Nação. Ai não se faz obra de reconstrução senão de destruição do que existia. Ai os usurpadores do Poder não cuidam dos altos interesses da Pátria, não olham para o futuro, revolvem o passado. Enfim não há, não pode haver comparação possível. O Brasil está se tornando conhecido como o mais atrasado e o mais bárbaro dos paizes do mundo. Isso só endireitará no dia que nosso governo promova a pacificação completa da família brasileira, unindo todos os corações e fazendo a mobilização moral e cívica de todos os valores nacionais a bem da nacionalidade.

   Não escrevo a todos os amigos porque não tenho certeza da inviolabilidade de minha correspondência e não desejo comprmete-los. Peço retribuir as saudades que me enviaram o Villaça e Kalil e de lembrar-me a todos os demais.

   Com os nossos envio muitos saudades á Apparecida e filhos, Alceu e toda família, Avelino e aos seus e a todos os nossos.

   Saudades e abraços do irmão afetuoso.

Julio Prestes

 

Paris, 1 de nov de 1931.

 

Meu caro José

 

   Recebi, com grande prazer a sua carta de 9 de outubro, comunicando o bom sucesso de Apparecida e o feliz nascimento de Julinho para que todos nos desejamos muitas felicidades. Em nossa casa todos ficaram muito satisfeitos com essa noticia e com a comunicação de sua nova residência “Serrinha”, pois esperam em breve mudem-se para as “Araras” antigorando os encantos da visinhança…

   Pretendemos pois o inverno em Portugal e sendo o clima é semelhante e mais quente aqui, apesar de não estarmos ainda no inverno, já temos tido dois dias com 4o graus abaixo de zero o que já é bem desagradável para vir.

   As noticias que temos nossa Pátria são raras e confusas.

   Os jornais daqui nada publicam sobre o Brasil.

   De vocês todos temos noticias vindas mais pelas cartas da Olívia que nunca deixa de escrever circulam desde sobre umas noticias de uma revolta em Pernambuco e outras partes, como de costume, manda desmenti-las. Assim não são rumores que haja. Se um tiver por ali um ponto de apoio seja ele onde for e me colocar-me no meio os amigos, pois julgo que o Brasil ainda vivera num sacrifício pela sua reputação.

   Mas por enquanto pela correspondência que me chega, vejo que o nosso partido cresce dia a dia sem que entre tanto, haja o mínimo indicio de disposição para acertar.

   Quando estiver com nossas armas lembre-me sempre a todos que de nenhum me esqueço na minha grande saudade.

   A Alice, o Fernandinho e as meninas muito se recomendam a você e a Apparecida a todos felicitamos exfusivamente.

Abraços do irmão

Afeto

Julio Prestes

 

Paris,20 de janeiro de 1931

 

Querido tio José

 

   Sem poder despedir-me dos amigos e parentes fui obrigado a embarcar para a Europa.

   Para felicidade dos nossos patrícios a nação já esta se formando, e em breve será uma realidade.

   A nossa passagem pelo Rio, quando embarcávamos foi muito comovente, a marinha formou e prestou todas as honras a papai de chefe de Estado.

   Se Deus quiser brevemente embarcamos juntos.

   Recomendações a Apparecida e aos meninos.

   Um grande abraço do sobrinho e amigo.

Fernandinho.

Rio, 26 – 9 – 926

 

José

 

          Saudações.

 

    Recebi tua prezada carta, escrevi ao Severiano sobre o               modo que ele deverá tratar os cavalos.

    Disse-me que , quando fores ao Paiol , procure ouvir-te que lhe explicarás como desejo que se faça.

    Qualquer outra coisa que não esteja direita, peço a ti o obsequio de orienta-los, falando ao Severiano e a Dna Rosa que é sua companhante e mulher escute as ordens.

   Peço ver também os touros de raça se estão bem tratados.

   Veja se há compradores para o gado de corte e se convem vender já ou não, qual o preço, etc…

   Com relação aos porcos a mesma coisa. Parace-me que o Avelino Rodrigues queria comprar todos. Veja se há conveniência em vende-los e por que preço.

   A Alice, Fernandinho e Irene chegaram hoje.

   Saudades á Apparecida e no Luis.

   Lembranças a todos os nossos.

Abraços do avô e irmão afetos.

Julio Prestes

Rio de Janeiro 9 -6 – 1926

 

José

Saudades

 

   Estou tão cheio de serviços que não sei se agüentarei por muito tempo nesta vida. Basta ver que estou como líder, como presidente interino de comissão de finanças, como seletor de orçamento da Agricultura, como membro do conselho superior do trabalho, e alem de tudo, com varias incumbências e estudos que me tomam o tempo todo.

   Nessas condições não poderei sair do Rio sob pena de prejudicar os negócios que me foram confiados.

   Assim, não irei, como desejava, assistir as corridas no Paiol, a 23 de junho. Conhecer o neto que tenho e as condições em que foi realizado. Se quiseres ir dirigir essas corridas, vá ao Paiol e veja se convém que elas se realizem se o Jacamim esta bem tratado e em condições de correr o tratador é homem de toda confiança e um dos melhores corredores que existem. Faça as corridas com ele ou não faça se quiseres, dirigi-las, poderás me substituir e ficar com elas para ti.

   A aposta é de um potro, filho do Jacamim por potra filha do cavalo do Benjamin Coelho. Se perder entregue o potro e se ganhar fique com a potranca.

   Se em todo caso, houver umas férias de uns três dias, para mim, irei assisti-las, mas elas são tuas.

   A Alice, Irene e Fernandinho aqui estiveram, regressando ontem para São Paulo. Saudades á Apparecida e ao Luis

   Abraços do irmão afetuoso.

Julio Prestes

José

 

Saudades

 

   Escrevi ao Julio pedindo ao G. R. uma procuração dando-te poderes sobre o negocio da Usina. Recebi carta do Julio de 21-11 deste ano dizendo: ” Conversei com o G. que ficou de escrever e me disse que escreveu autorizando o José a fazer o que entender. Que o José já tem procuração sua e poderá resolver como entender. Mas se por ventura precisar de qualquer coisa eu não estando aqui, seu endereço é este: Hotel Paris – Boulevard de La Madeleine, no 8. Se precisar de qualquer auxilio para auxiliar o José mande-me dizer, o que o José precisa antes de mais nada, é tratar da saúde. Ele não poderá se descuidar, pois esta na época de ter perturbações cardíacas, nervosas ou rurais, por falta de tratamento especifico. Não deixe de mandar examina-lo e fazer com que ele entre no induto e no mercúrio.Há poucos dias sonhei que ele estava muito doente. Mande examina-lo mesmo que esteja aparentando saúde e faça com que se trate”.

   O Julio tem razão, venhas o quanto antes ate aqui , matarmos saudades e consultarás um medico , levando remédios indicação do tratamento. A tua saúde é preciosa.    

   Venhas.

   Pelo mesmo correio recebi do G. a seguinte carta: Meu Fernando amigo Coronel Prestes o Julio transmitiu o seu recado e em resposta devo dizer-lhe que mandei ao José a quitação do meu credito para ele fundar a sociedade anônima. Não sei se fundou ou não pois não tive aviso mas o Sr e ele estão autorizados a fazerem o que quizerem deste negocio.

   Não é preciso procuração porque José tem meus recibos, em todo caso repito que tem carta branca para agir como entender. Respeitos a todos aos seus um abraço de seu amigo certo.

G.R.

   Paris 20-11-31

 

Monte Estoril, 18 de abril de 1932

   Meu caro José

   Muitas saudades

   Aqui cheguei com o nosso amigo Benedito no dia 25 de março, às 18 horas o Cap. Arcona entrou no Tejo, as 2a chegou a Lisboa, onde nos abraçaram a Julio, Alice, Marialice, Fernadinho, Julice, General Serifredo, Victor Kander, irmã e outros amigos, e dali viemos de automóvel.

   O lugar muito aprazível, bom clima boa gente e o Julio habita magnífica vivenda. Apesar de todo conforto todo carinho com que estão nos tratando a saudades de todos os nossos me obrigará voltar mais depressa do que esperava. A primavera aqui é lindíssima quase todas as arvores e os jardins desabrocham em lindas flores. A gente é muito boa. De Lisboa até aqui gasta-se 30 minutos de comboio, passando-se por 16 aldeias, unidas uma as outras, a beira do mar sempre.

   Julio esta gordo e forte e bem assim Marialice, fernandinho e Julice. Alice tem passado melhor.

   Aceite com Apparecida e as queridos netinhos lembranças saudosas de quem te abraça com afeto por ser pai amigo.

Fernando Prestes.

   Saudades a primo João, José e família e bem assim outros amigos.

   Alice, Marialice, Julio e Fernandinho enviam muitas saudades a você Apparecida e filhos.

São Paulo, 9 de março de 1932

 

José

 

Muitas Saudades

 

   Cheguei ontem a Santos onde fui me encontrar com Irene que veio na Cap Ascassa, ela fez boa margem r melhorou da moléstia que a conselho medico trouxe-a para o Brasil. Irene esta sofrendo de sinusite, mas chegou forte e bem disposta, hospedando-se em casa de filhinha do Dr Carlos ferreira Lopes, a rua Bahia, 73. Deixam Julio, Marialice, Fernandinho e Julice com saúde. Alice não tem passado bem. Julio na carta que me escreveu mandou-te saudoso abraço.

   No dia 15 deste pretendo partir para Europa com o nosso amigo B. Passos. O que me leva á saudade.

   Não ficarei lá mais que dois meses. Você não se preocupe com o nosso negocio. Vá tocando o barco e seja feliz. Deus o proteja.

   Vou ver também a Lisboa e de la o Monte estoril, onde esta o Julio são 20 minutos de trem. A correspondência vai ter este endereço: Monte Estoril. Grande Hotel Itália Lisboa.

   Logo que chegue lá darei noticias

   Muitas saudades a Apparecida e aos meus queridos netinhos, aceite um afeituozissimo abraço de saudosa recodação.

   Peço a Deus que te abençoe e a toda família.

Do teu amigo afeto

Fernando Prestes

 

P.S.

Lembranças saudosas ao Primo João ao José e a toda família.

São Paulo, 25 – 01 – 1937

 

José

 

   Após 2 meses de grande e pertinaz enfermidade tenho o prazer de oferecer e retribuir as felicidades que com a Apparecida e filhos me enviaste.

   Aqui cheguei muito mal o Dr. Pedro Dias examinou a urina e encontrou açúcar, fiquei de regime e no fim de 15 dias desapareceu e ele deu-me alta.

   Estou em franca convalescença e espero me restabelecer dentro de alguns dias.

   Muitas saudades a Apparecida e aos meus queridos netinhos abraço saudoso do pai avô afeto.

Fernando Prestes

São Paulo, 31 de Outubro de 1935

 

José

 

   O teu aniversário, hoje em casa foi muito lembrado por todos, juntamente com a Cecília que esta forte e bem disposta.

   Queira aceitar, por este motivo os votos que passamos pela sua felicidade, pedindo a Deus que te abençoe e te faça verdadeiramente feliz com a Apparecida e meus queridos netinhos, aceitem lembranças saudosa e num afetuoso abraço do      Pai Amoroso

Fernando Prestes

 

 

 

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