Júlio Prestes em Santos-SP

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http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0087.htm

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Convocação para uma concentração santista pró-Júlio Prestes/Vital Soares, Imagem: anúncio publicado em 1º de outubro de 1929 no jornal santista A Tribuna, página 3

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Este relato é parte da matéria Flash do Porto de Santos em maio de 1930, publicada pelo pesquisador José Carlos Rossini dentro na sua série Rota de Ouro e Prata, no jornal A Tribuna de Santos, em 9 e 16 de agosto de 1998:

José Carlos Rossini (*) 

No Brasil de 1930, as atenções se voltavam para a figura de Júlio Prestes de Albuquerque, presidente eleito da República e governador do Estado de São Paulo, sucedendo no primeiro cargo Washington Luiz Pereira de Souza. 

Em tumultuada sessão do Congresso Nacional realizada em 22 de maio na capital do Rio de Janeiro, aprovava-se o resultado das eleições presidenciais recentemente realizadas em todo o país, proclamando-se então solenemente Júlio Prestes de Albuquerque e Vital Soares como respectivamente presidente e vice-presidente da República do Brasil para o quadriênio de 1930 a 1934. 

Exatamente no mesmo dia, o ilustre cidadão paulista chegava, acompanhado de sua esposa, Alice Prestes, e comitiva, à cidade de Santos. Às 17 horas, em trem especial, o próximo presidente da Nação saía da Estação da Luz. 

Duas horas e meia mais tarde, o comboio presidencial chegava a Santos, onde, através do desvio entre a Estação da São Paulo Railway e o cais, penetrava diretamente na faixa portuária, vindo a parar em frente ao Armazém nº 15, já então apinhado de curiosos e admiradores.

Quando Júlio Prestes apareceu na plataforma do trem, os presentes eclodiram em prolongada salva de palmas, logo seguida pela execução do Hino Nacional pela banda musical do contingente da Força Pública. 

Seguiu-se um prolongado ritual de saudações oficiais por parte de autoridades civis e militares da região santista, entre as quais José de Souza Dantas, prefeito municipal, e Belmiro Ribeiro de Moraes e Silva, presidente da Câmara Municipal. 

Trocados os cumprimentos de praxe, Júlio Prestes e comitiva subiram a bordo do vapor atracado no cais desse mesmo Armazém 15. Logo a seguir foram iniciadas as manobras de desatracação, enquanto em terra firme a banda do Corpo de Bombeiros executava, por sua vez, o hino da nação. 

Às 20h50, o Almirante Jaceguay iniciava sua livre navegação e 20 minutos mais tarde passava todo iluminado em frente à Ponta da Praia. Na areia, alguns carros com faróis acesos e pequena multidão com lenços brancos a esvoaçar; a bordo, um presidente democraticamente eleito que nunca chegaria a governar seu país. 

Fora da barra, o vapor do Lloyd Brasileiro recebeu a escolta de dois cruzadores da Marinha do Brasil, Bahia e Rio Grande do Sul, que estavam destinados a comboiar o Almirante Jaceguay até Nova Iorque, destino final da viagem. 

Júlio Prestes de Albuquerque dirigia-se a Washington em visita oficial ao presidente norte-americano Herbert Hoover, retribuindo assim a passagem que este último fizera em nosso País em 1928.

Encontro com o Zeppelin – Após sair de Santos na noite do dia 23 de maio, levando a bordo o presidente eleito da Nação brasileira, o Almirante Jaceguay escalou no dia seguinte no porto do Rio de Janeiro, onde outras homenagens foram prestadas ao insigne cidadão. 

À noite, o vapor desatracava rumo Norte. Trinta e seis horas mais tarde, ao Sul da costa baiana, o dirigível alemão Conde Zeppelin sobrevoou perto do Almirante Jaceguay, trocando-se várias mensagens via rádio-telégrafo entre as embarcações do comboio presidencial e outras estações em terra firme.

O Conde Zeppelin encontrava-se em viagem, a primeira de um dirigível para a América do Sul, tendo largado cabos de amarras de Friedrichshaven (Alemanha) às 17h18 do dia 18 de maio. Aterrissou em Sevilha às 17h40 do dia seguinte, de onde sairia na manhã do dia 20 com destino ao Rio de Janeiro, via Recife. Levava a bordo 25 passageiros: seis espanhóis (inclusive o príncipe Alfonso de Orleans), cinco alemães, cinco suíços, seis norte-americanos, um argentino e um casal de brasileiros, doutor-professor Vicente Licínio Cardoso e esposa. 

Despertando enorme curiosidade popular, a aeronave aterrissou no Campo dos Afonsos, na então Capital Federal, às 6h30 de domingo, 25 de maio. Curta escala de apenas três horas, o suficiente para desembarque e embarque de passageiros, e saída às 9h45, rumo Norte, para nova escala em Pernambuco e prosseguimento para Lakehurst (Estados Unidos).

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Panorama do porto e da cidade de Santos em 1935, Foto: reprodução do livro: Docas de Santos – Suas origens, lutas e realizações, de Hélio Lobo, Typ. do Jornal do Commercio – Rodrigues & C. – Rio de Janeiro/RJ, 1936, (acervo do historiador Waldir Rueda)

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Tempos difíceis – Último ano de uma década de crescimento e derradeiro da presidência do doutor Washington Luiz Pereira de Souza, o de 1929 havia sido um ano difícil para o Brasil, confrontado por vários problemas internos e externos: crise industrial devida à superprodução mundial, crise agrícola com forte depreciação dos valores dos produtos, principalmente café, crise econômica devida ao enxugamento de crédito internacional após a quebra de Wall Street, crise sanitária com o reaparecimento de grandes surtos de febre amarela e crise política interna provocada por nascentes movimentos revolucionários. 

Em dezembro de 1929, as reservas mundiais de ouro representavam no total cerca de 49 bilhões de marcos-ouro, das quais o Brasil só possuía uma ínfima porcentagem, ou seja, pouco mais de 600 milhões, o que o colocava na 13ª posição. 

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Em comparação, os Estados Unidos possuíam 18 bilhões, a França 7 bilhões, a Inglaterra 3 bilhões e, surpreendentemente, em 7ª posição, a Argentina, com 1,8 bilhão. Entre os outros dez primeiros países por reserva-ouro encontravam-se o Japão (2,7 bilhões), a Alemanha (2,3 bilhões), a Espanha (2 bilhões) e a Itália (1 bilhão). 

Estas eram as potências econômicas do mundo de então. Café, sempre o café como primeiro produto na pauta Exportação do comércio exterior brasileiro; a política de produção e escoamento do café foi o grande pomo de discórdia nacional durante a década de 20 e que resultaria no conflito interno da Revolução de Outubro de 1930. Em 1929, das sacas exportadas pelo Brasil, 90% passariam pelo cais de Santos. 

(*) José Carlos Rossini é pesquisador de assuntos navais e marítimos, radicado em Genebra, na Suíça.

N.E.:As eleições presidenciais de 1930 ocorreram no dia 1º de março, vencendo Júlio Prestes. O candidato opositor era o gaúcho Getúlio Dorneles Vargas, que a partir do dia 3 de outubro liderou, no Rio Grande do Sul, a chamada Revolução de 1930, que no dia 24 de outubro obteve a deposição do presidente Washington Luís. 

No dia 3 de novembro, Getúlio tomou posse como chefe do Governo Provisório, impedindo assim a posse de Júlio Prestes. No dia 11 de novembro, dissolveu o Congresso Nacional e destituiu todos os governadores, menos o de Minas Gerais, criando o cargo de interventor federal nos Estados. Washington Luís – que havia sido preso no forte Guanabara, por se recusar a abandonar o posto de presidente – foi exilado no dia 21 de novembro, seguindo para a Europa. Júlio Prestes, que havia retornado ao Brasil da viagem aos Estados Unidos, tinha procurado asilo no consulado da Inglaterra. 

Em 12 de dezembro, o tenente Juarez Távora era empossado por Getúlio como chefe da delegacia do Governo Provisório para os estados do Norte-Nordeste, com poderes sobre todos os interventores (também militares). Começava assim o período ditatorial de Getúlio Vargas.

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