revolução de 1924 e o tenente cabanas, foi contra isso que Júlio Prestes lutou

Capelinha onde ainda se cultua a lembrança do preto que tombou:          vítima das forças policiais revolucionárias nos idos de 1924;  

 Após adentrarmos pela estrada antiga que une Eleutério a Barão Ataliba Nogueira deparamos com uma capelinha semi abandonada, logo a entrada pelo lado de trás de Barão e à esquerda da referida estrada.

Pudemos notar, no entanto que há indícios de alguma atividade religiosa devido à limpeza interna e o mato desbastado a sua volta. Ignorando qual santo se cultuava na tal capelinha sem nome, fomos indagando aqui e acolá.

Quem nos revelou a sua origem foi o seu Osmar Pereira da Silva, filho do Zino, antigo morador do local e ligado pelos seus ancestrais à própria fundação de Barão de Ataliba Nogueira.

Zino cujo nome é Ivo Pereira da Silva, era filho de Joaquim Inácio Pereira da Silva e de D.Teresa Ratz Bologna; trineto paterno de Manuel Pereira de Avelar (fundador de Itapira) e neto materno de Jacob Bologna este juntamente com João Conrado Wiesmann, foram os fundadores da Igreja Presbiteriana de Itapira, cuja matéria já abordamos no jornal “A Tribuna de Itapira”.

Seu Zino casou-se com D. Deolinda Breda, filha de Santo Breda e de D.Maria Pelloso; neta paterna de Natale Breda e de D. Brígida. Tanto pelo lado paterno quanto pelo materno Osmar, filho de Zino, tem uma vasta e riquíssima ascendência em cujo veio iremos ainda adentrar em matérias futuras. É casado com D. Odete Bonamelli sendo os filhos Rita de Cássia e Cristina.

A história contada pelo seu Osmar nos revelou aspectos importantíssimos, no sentido de a compararmos com outra história já inclusive publicada pela Odete Coppos em seu “O Livro da Festa do 13, E Das Congadas de Itapira”. Disse-nos Osmar ao ser indagado sobre a origem daquela capela: que a mesma fora erigida pelos moradores do local como preito a um crime ocorrido naquelas redondezas por volta de 1924 em plena revolução no fatídico quatriênio do Governo Artur Bernardes.Segundo ainda nosso interlocutor, naquele local foi enterrado um preto de nome desconhecido, que foi morto pela polícia após a ocorrência do crime ora citado.

Pois bem, um pouco antes da revolução e desse fato ter ocorrido seria importante retroagirmos aos momentos que antecederam a tragédia para entendermos melhor essa história.

Habitavam na antiga, Barão Ataliba Nogueira de então as famílias tradicionais tais como as famílias dos Pereira da Silva, dos Bredas, dos Lovo, dos Rosário etc. Como sói acontecer, num lugarejo pequeno, todos se conheciam e apesar das boas amizades sempre existe algum melindre que acaba em desentendimentos, inimizades e até em vingança.

Foi o que ocorreu com o sr. Natale Breda, bisavô materno do Osmar. Habitava por aquelas bandas um sr. de nome David Bocon que após ter sofrido um acidente e batido com a cabeça (em decorrência do contumaz vício alcoólico), ficou meio destrambelhado e vivia frequentemente criando conflitos, brigas e arruaças nos bares da localidade.

Numa dessas vezes, acabou sendo trancafiado atrás das grades da cadeia local, por solicitação dos próprios moradores dali. Corria o ano de 1924 e com a chegada da revolução, os novos momentos político-revolucionários vieram favorecer os presos.

Uma ordem do Tenente Cabanas, (de quem trataremos nos parágrafos abaixo) motivado pela necessidade de arregimentar soldados para as suas forças de combate, libertou todos os que se encontrassem presos. David Bocon foi beneficiado também através desse informal decreto. Para situarmos esses acontecimentos seria importante relembrarmos alguns tópicos sobre a Revolução de 1924, muito pouco conhecida e assim refrescarmos a nossa memória. 

Soldados da Coluna da morte:

 É provável que esta foto tenha sido tirada na Fazenda “Forões pertencente na época ao sr. Augusto Fracarolli. 

A coluna Prestes foi o desfecho de todo um período revolucionário, que iniciado em 1922 só terminaria em 1926, quando o destacamento rebelde chefiado por Miguel Ciosta e Luis Carlos Prestes travou a última batalha com os legalistas na região do rio São Francisco, próximo a Bahia.                                

Através desse breve retrospecto, passearemos um pouquinho pelos rumos históricos no sentido de situarmos melhor a época e o fato acima enunciado.

Esse movimento revolucionário teve início em 5 de Julho de 1924 em São Paulo. Era por sua vez a continuação do ciclo revolucionário que se iniciou em 1922 na gestão do presidente Epitácio Pessoa, quando permitiu que elementos civis administrassem pastas militares e quando vetou um orçamento que contrariou interesses políticos regionais do Congresso.

Essas medidas foram aos poucos se transformando em focos de tensão e explodiram sucessivamente envolvendo todos os estados brasileiros, onde a classe civil e a militar tomaram parte de um modo bastante significativo. Surgiu daí o movimento dos 18 do Forte de Copacabana, (5/07/1922) pela prisão do Marechal Hermes da Fonseca, então presidente do Clube Militar.

Passado este episódio, porém a efervescência política ainda teimava em manter aceso o estopim de novas arruaças. Devido a discordâncias no pleito eleitoral quando da eleição para o quinquênio 1923-1928, a revolução prosseguia.Em 1923 estoura no Rio Grande do Sul e se alastra para os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. Tropas federalistas e republicanas digladiavam-se e com severas perdas iam inflamando aqueles terríveis dias revolucionários.

Só esmoreceram mesmo e após muitas baixas quando foi assinado um acordo em Pedra Alta, a 14 de Dezembro de 1923, entre os representantes republicanos e libertadores. Encerrou-se assim a chamada Revolta dos Libertadores.

Foi então que na madrugada de 5 de Julho de 1924, conforme iniciamos o parágrafo que os primeiros tiros novamente se fizeram ouvir retomando o processo revolucionário. De características semelhantes aos episódios anteriores, apenas que com maior amplitude, maior numero de militares e unidades do Exército, força policial e também pela mobilização popular.

Foi nessa época que se formou a famosa “Coluna Prestes”, formada pelo Sexto Corpo Auxiliar da Polícia do Rio Grande do Sul, comandada por Juarez Távora, um dos participantes do movimento de 1922 e que se achava foragido ou em liberdade. Formaram um grupo rebelde e revolucionário comandados pelo general reformado Isidoro Dias Lopes, capitão Gumercindo Saraiva da revolução Federalista de 1893 e com apoio posterior do major Miguel Costa e iniciam o movimento. Foi nessa época que surgiram as figuras dos Tenentes Eduardo Gomes, Antonio Reinaldo Gonçalves. Expandiu-se o movimento por todo o interior: Rio Claro, Jundiaí, Itu, Campinas, Araraquara, São Carlos, Jabuticabal e Pirassununga. Surge então uma das mais notáveis figuras desses momentos históricos: o tenente João Cabanas, que usou de inteligentes estratagemas para conter as tropas legalistas.                                                                                                     

 Arthur Bernardes que governou o Brasil de 1922 a 1926, teve de enfrentar a oposição dos inimigos, agrupados na Aliança Libertadora. Foi no seu governo que ecoldiu a Revolução de 1924. 

Assim se expressa a “História do Brasil”, vol.III da Bloch Editora, na sua edição de 1974 sobre esse período revolucionário (1922-1926). ”O movimento revolucionário de 1922, que teve suas raízes na sucessão de Epitácio Pessoa, legou a Artur Bernardes um dos períodos mais conturbados da República Velha.  

Diretamente implicado no episódio das cartas falsas, que acabou originando os 18 do Forte, Artur Bernardes conseguiu superar a forte oposição que lhe moveu a classe militar, elegendo-se presidente. Apesar de sufocada, a Revolta dos Tenentes, como ficou conhecida, criou no país um sentimento de inconformismo que desencadeou uma série de revoluções.

No Rio Grande do Sul, em 1923, eclodiu a Revolta dos Libertadores. Em 1924, em São Paulo, irrompeu a revolução de Isidoro Dias Lopes.E com os remanescentes desses movimentos, em 1925, formou-se a  “Coluna Miguel Costa Luís Prestes”.                                                                                           

Tenente Cabanas liderou o movimento revolucionário em 1924.    Mobilizou suas tropas na Rua do Amparo (atual Rua da Penha)

Em nossa região e especificamente, em Itapira, a atuação do Tenente Cabanas teve a repercussão que já enunciamos acima, quando da soltura dos presos da cadeia local onde se incluía o David Bocon e também um outro preso de cor negra cujo nome permaneceu incógnito ou desconhecido desde então e que também pelas inúmeras ocorrências policiais vivia às voltas com a lei. Logicamente não iremos aqui discorrer longamente sobre a Revolução de 1924, mesmo porque tal episódio pode ser encontrado em qualquer livro de História do Brasil.

A finalidade dessa lembrança foi apenas para caracterizar a época conturbada da revolução, a presença do Tenente Cabanas nas decisões que aqui já apresentamos e a sua associação com a nossa própria história. Apenas para ilustrar o tenente João Cabanas, adentrou por Itapira e na Rua do Amparo cerca de 200 homens desfilaram armados, tendo havido ali algumas escaramuças e muitos tiros. Foi nessa época que o Cel. Francisco Cintra, atuou energicamente e unido com o povo promoveu decisões de força e enfrentamento desse episódio bélico.Triunfaram os legalistas contra o movimento “tenentista” e revolucionário. Já no paço municipal o Cel. seria destacado por essa enérgica atuação através da fala inflamada do General Alcides Amaral.                                                                                                               

Cel Francisco Cintra em 1935. Tomou parte do episódio de 1924,  dificultando energicamente a ação do Tenente Cabanas em nossa cidade.

Muito bem retornamos agora àquela capelinha de beira de estrada, cuja história principiamos a contar através do Osmar Pereira, filho do Zino, Ato contínuo quando soltos, David Bocon e o negro fugitivo, ambos após terem se livrado dos grilhões da cadeia pública, vendo-se livres rumaram para Barão Ataliba Nogueira e ali adentrando pelo meio do mato, protagonizaram aquilo que a mente doentia do David Bocon havia planejado: vingança, ou seja, assassinar a Natale Breda, quem julgava ter sido o mandante de sua prisão.

Foi assim que na porta de um barzinho do referido bairro do Barão, culminou por desferir várias facadas em seu desafeto pondo-lhe fim a vida. Após o que, em fuga célere junto com seu comparsa negro adentraram de retorno à mata circundante. A perseguição policial; o cerco e o espocar de alguns tiros puseram fim a vida do comparsa negro sem, contudo até hoje terem encontrado o David Bocon. Esse negro que apenas acompanhava David acabou levando a pior. Este “livrou-se”, pelo menos é o que se sabe, do cerco e da turba armada que lhe perseguiu e nunca mais foi encontrado.

Bem, essa história tem uma sequência comparativa com outra e que foi publicada por Odete Coppos no seu livro já citado acima. Textualmente e conforme o título abaixo assim se refere Odete quando cita um personagem negro à página 60 da referida obra. Utiliza também nessa citação o texto da lavra do nosso famoso e querido articulista João do Norte. E prosseguem ambos: 

Anterão: outro filho do “Chico Pitada“                     

      

                                                                         

“O João do Norte diz que o Anterão, foi filho do “Chico Pitada”; que era um negro elegante, de boa altura, e vestia-se “caprichadamente”; mas que tinha seus deslizes…certas atrapalhadas…indolente e outras “cositas” mais. Um dia o ANTERÂO (o grifo é meu),desapareceu, lá por volta de 1924, no quatriênio do Governo Artur Bernardes. Muita gente se lembra da revolução de 1924, do consumismo de pessoas, e foi num destes que o nosso conterrâneo Anterão desapareceu…” Agora vejamos: Em 1924, um preto é morto nas matas de Barão Ataliba Nogueira e praticamente inocente do crime cometido, é enterrado a margem da estrada velha logo a entrada da Vila.

Logo depois o povo constrói uma capela e passaram a cultuar a lembrança do negro ali enterrado. Por outro lado a Odete Coppos, citando o João do Norte, textualmente relata uma história e que comparativamente tem muito a ver com a relatada pelo Osmar. Podemos concluir sem muito medo de errar que é bem provável que o preto morto pelos policiais naquele ano revolucionário de 1924 tenha sido o ANTERÃO, filho do CHICO PITADA, já tão sobejamente conhecido de nós, figura esta que angariava fundos para a construção da antiga capelinha de São Benedito, tendo como característica marcante o seu famoso Oratório de Capelinha.

 Vejam que tal fato resultou de nossas andanças pelas terras de Eleutério e Barão Ataliba Nogueira. A história potencialmente verídica relatada pelo Osmar associada a comparação com os textos da Odete Coppos , permitiu-nos tecer nas malhas do tempo o fato em si que foi a morte do negro fugitivo com o incógnito desaparecimento do Anterão. Num feliz “golpe de sorte”, trouxemos à tona, histórias e fatos escondidos que estavam a desafiar a argúcia e a lógica dos acontecimentos.Desafiar o passado é um dos objetivos da história e assim deve prosseguir o homem sedento de novos conhecimentos e aventuras.

 A Capelinha estava lá abandonada; o relato do Osmar também estava lá à espera do ouvinte; idem quanto ao texto da Odete. Faltava apenas uní-los, todos, nessa composição no sentido de dar um nome e um motivo para o desaparecimento do negro fugitivo. Faltava apenas uma explicação para a tão recôndita origem da capelinha à beira de estrada. Após esta matéria fica a certeza de que a capelinha, situada na estrada velha de Barão Ataliba Nogueira foi erigida pelos moradores locais em 1924 com o objetivo de cultuar a memória de um negro que ali tombou no lugar do verdadeiro criminoso. Fica também a nossa certeza de que esse negro inocente ao nosso ver não foi outro senão o ANTERÃO, filho do Chico Pitada, de cuja história se ocupou  a escritora Odete Coppos. Polêmicas à parte com a construção dessa capelinha e com o culto pelo povo da lembrança desse episódio, é lógico, racional e coerente se pensar que ANTERÃO, apesar de suas peripécias e que tais, em sendo o negro companheiro do verdadeiro assassino, tenha sido inocentado desse hediondo e perverso crime.

6 Respostas to “revolução de 1924 e o tenente cabanas, foi contra isso que Júlio Prestes lutou”

  1. Edarbis Ap. Corral Olbi Says:

    Nasci e cresi no bairro do Barão At. Nogueira brincava nesta capela, vi os morradores restaurar esta capela que por pouco não veio a se perder no tempo.E só agora fiquei sabendo da historia da capela pode ter certeza que vou contar para todos da minha familia para que nunca a historia da capela não se perca no esquecimento.

  2. Edison Lehmann Says:

    Só para constar:
    Sou neto de Alexandre Walter Lehmann, que em 1924 era soldado da Força Pública e esteve durante a revolução de 1924, numa trincheira, na mesma rua em que ele morava no bairro da Aclimação.

  3. vera telma Says:

    Passei minha infância naquela vila. Sou filha de joaquim e nadir, neta de zino e deolinda. Passava de bicicleta, sempre em frente daquela capelinha. achava estranho. Sentia muita tristeza ao passar por ela.

  4. Beatriz Says:

    Sou sobrinha-neta do Tenente Cabãnas. O neto do General Miguel Costa está escrevendo um livro sobre ele…

  5. Celso Pinho Says:

    Sobre a participação do Tenente Cabanas na região, notadamente em Itapira, sugiro a leitura do livro “Cabanas” de nossa autoria, lançado em 2015 (www.editoragregory.com.br). Para escrevê-lo, visitamos Campinas, Jaguariuna, Amparo, Serra Negra, Itapira, Mogí Mirim, Espírito Santo do Pinhal e outras cidades próximas, em pesquisa minuciosa, porém gratificante. Em Itapira, curiosamente, tivemos a oportunidade de conversar com um residente de 97 anos que ainda se lembra da passagem de Cabanas pela cidade.

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